Uma coisa do freak do Caeiro que deve ser tomada como referência para os que gozam de ser Portugas.

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo ... por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura ...

terça-feira, 10 de abril de 2007

Temos o que temos e o que merecemos

NÃO é preciso ter a carta de condução para se ser alguém na vida. Pode gostar-se ou não do estilo, mas ninguém contesta que o Vicente Jorge Silva foi uma das personalidades mais marcantes do jornalismo em Portugal. Ora, o Vicente tem atravessado a vida com sucesso, apesar de não ter carta. Desde o episódio fundador da crise académica de 69, em que pediu a palavra a Américo Tomás (o que lhe valeu ser preso pela PIDE e incorporado à força no exército), Alberto Martins é uma das figuras de referência da política portuguesa. O facto de não ter carta de condução não o inibiu de ser deputado, dirigente parlamentar e ministro. O próprio Durão Barroso chegou a ministro dos Negócios Estrangeiros sem saber fazer o ponto de embraiagem. Segundo sei, tirou a carta aproveitando a travessia do deserto guterrista, quando era consultor do GES e dava aulas em Washington. Não é preciso saber conduzir um automóvel para desempenhar cargos relevantes, na política ou nas empresas. Mas presumo que a nossa opinião do Durão Barroso mudaria se soubéssemos que ele tinha comprado a carta de condução em dinheiro ou a crédito no banco dos favores. Não me admirava nada se por essa Europa fora se começasse a ouvir vozes questionando se uma pessoa capaz de comprar a carta de condução podia continuar a presidir à Comissão Europeia. Não é preciso ter uma licenciatura para ser alguém na vida. No mundo empresarial abundam exemplos de gente que construiu impérios a partir do nada, sem ter podido passar pela universidade. Américo Amorim, Horácio Roque, Joe Berardo, Soares do Santos A sociedade valoriza muito estes trajectos e tem razão em fazê-lo. Como os meus pais se quedaram pela 4.ª classe e insistiram muito em criar condições para que eu tivesse um curso, eu licenciei-me em História, em 1989, na Universidade do Porto. O canudo está arrumado na estante preenchida com a História de Portugal do Mattoso, ao lado de uma escultura em barro da Savimba (uma moçambicana analfabeta) e de um Chveik em porcelana que trouxe do U Kalicha, em Praga.Tenho podido atravessar a vida sem usar o canudo. Nem dr. no cartão de crédito. Nem sr. doutor no tratamento. Nada. Tem-me bastado usar os conhecimentos e as ferramentas que ele me proporcionou. Se me ardesse o canudo, não teria a mínima dificuldade em fazer prova da minha licenciatura, reunindo testemunhos de colegas com quem estudei, ou a quem emprestei apontamentos, e de professores cujas aulas frequentei e tiveram de aturar os meus devaneios da época. Não percebo por que é que Sócrates não esvazia o balão do escândalo gerado à volta da forma como obteve a licenciatura que reclama, fornecendo provas de que a conseguiu como deve ser (frequência de aulas, apresentação de trabalhos e realização de exames). Demonstrando assim que ela não foi comprada, em dinheiro ou a crédito, no banco de favores, como se suspeita possa ter acontecido. Este assunto e muito mais sério e relevante do que os cobardes boatos sobre a sua orientação sexual lançados anonimamente na campanha para as legislativas.

in OJE

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